sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Entrevista: qual é o perfil do jornalista brasileiro?

Fruto de uma pesquisa considerada a mais ampla já realizada sobre os jornalistas brasileiros, o livro Perfil do jornalista brasileiro - características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico em 2012” foi lançado recentemente pela Editora Insular. A obra representa as conclusões observadas a partir da contribuição de 2.731 respondentes, com foco em três segmentos da profissão: mídia, ambientes fora da mídia e docência.

blog Dissertação Sobre Divulgação Científica entrevistou o coordenador da pesquisa, o jornalista Jacques Mick, professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que atuou em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), com a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) e com o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ).

Algumas constatações foram:
o jornalismo nacional é formado por 36% de homens e 64% de mulheres; 98% dos profissionais têm formação superior, dos quais 91,7% são graduados na área; a grande maioria dos entrevistados defende a obrigatoriedade de formação universitária para exercer a profissão, sendo que 55,4% exigem diploma específico em jornalismo; 59,9% dos jornalistas recebem até cinco salários mínimos; 55% atuam em mídia (veículos de comunicação, produtoras de conteúdo etc.), 40% fora da mídia (assessoria de imprensa/comunicação ou outras ações de conhecimento jornalístico) e 5% trabalham como professores (clique aqui para ler a síntese do livro).

Mick é doutor em
Sociologia Política pela UFSC
Leia a entrevista:

Como surgiu a ideia da pesquisa e como a proposta assumiu maturidade para ser efetivada?
Jacques Mick: O objetivo de identificar o perfil dos jornalistas era uma antiga decisão dos congressos promovidos pela Fenaj. Como é muito difícil realizar um levantamento desse porte com uma população tão dispersa no território nacional (e em tantas atividades) quanto à dos profissionais dessa área, a entidade não conseguiu levar adiante a decisão. 

Eu discutia esse problema com o então presidente da Federação, Sérgio Murillo de Andrade, em viagens de Florianópolis a Joinville, onde nós lecionávamos em um curso de jornalismo ligado à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Quando me tornei professor da UFSC, em 2009, passei a atuar no Núcleo de Estudos sobre Transformações no Mundo do Trabalho, onde encontrei o ambiente e os parceiros adequados para efetivar a pesquisa. Após o Sérgio Murillo fazer a mediação com a atual diretoria da Fenaj, foi firmado o convênio com o Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política (PPGSP).

Quais foram as dificuldades e que tipo de etapas são necessárias percorrer para a realização de um projeto dessa proporção?
Jacques Mick: A primeira dificuldade foi estimar o tamanho e a distribuição da população, base para qualquer pesquisa por amostragem. Colhemos dados de maio de 2011 a julho de 2012 junto ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), aos 31 sindicatos filiados à Fenaj e às 317 coordenações de cursos de jornalismo no país, em busca de critérios para conseguirmos uma aproximação das dimensões da população e das taxas de concentração nas principais regiões do país. Do cruzamento dos dados obtidos nesse trabalho de formiguinha, surgiu a estimativa de 145 mil profissionais registrados, e o plano amostral obedeceu às taxas de distribuição regional desses registros.

Quais foram as hipóteses e os pensamentos iniciais confirmados e/ou contrariados na pesquisa de campo?
Jacques Mick: Já imaginávamos que a proporção de jovens seria grande, o que apontam outros estudos analisados e também a escala do crescimento da oferta de cursos universitários na área. Particularmente, fiquei surpreso com os volumes de formação superior específica em jornalismo (89% da categoria) e de profissionais com pós-graduação (40%). Esses dois dados demonstram, em primeiro lugar, que a abundante oferta de faculdades na área transformou significativamente a composição do campo profissional. Em segundo lugar, esses trabalhadores estão em atividades de ponta na chamada sociedade da informação, o que lhes pressiona na direção da formação continuada, também uma estratégia para a inserção e a preservação em certos ramos de atividade.

Em que o grupo de estudos se baseou para explorar os tópicos incorporados à pesquisa?
Jacques Mick: O questionário foi fundamentado em estudos anteriores realizados no Brasil e no exterior. Entre os pesquisadores brasileiros consultados estão H. Herscovitz e R. Figaro; de Portugal, especialmente os trabalhos de J. Fidalgo, J. Garcia e J. Rebelo; dos Estados Unidos, os estudos de D. Weaver. 

Versões preliminares do instrumento foram criticadas por dirigentes da Fenaj, do FNPJ e da  SBPJor, assim como por importantes pesquisadores do país, que contribuíram com o aperfeiçoamento de perguntas ou opções, ou com a sugestão de novos tópicos.

Quais são as principais conclusões observadas pelos organizadores da pesquisa?
Jacques Mick: A pesquisa permite o avanço no entendimento de uma série de características da categoria hoje no Brasil. Havia muita especulação sobre, por exemplo, as dimensões do jornalismo, o número de trabalhadores sem registro, sem diplomas, a distribuição da categoria na mídia e em assessorias de imprensa. A pesquisa oferece parâmetros mais confiáveis para o debate sobre cada um desses aspectos. Constatamos que 98% dos profissionais têm formação superior, dos quais 91,7% em jornalismoEsse dado revela o impacto do crescimento da oferta de força de trabalho graduada na reformulação do campo profissional. Também identificamos a configuração da categoria por área de atuação: 55% trabalham principalmente em empresas de mídia; 40% fora da mídia (assessorias de comunicação e/ou de imprensa) e os outros 5% na docência superior.

Houve algo nos resultados que o surpreendeu?
Jacques Mick: Além dos aspectos já comentados, ficamos surpresos com as taxas de sindicalização, bastante baixas. O índice constatado foi de apenas 25,2%, contra mais de 59% da média dos trabalhadores urbanos pelos dados do último Censo do IBGE. Há margem para crescimento desse dado, uma vez que 43,2% dos que responderam não estar filiados a sindicato de jornalistas alegaram razões que propiciam o diálogo com lideranças sindicais: diretoria do sindicato não representa a categoria (10,6%); não conheço o sindicato (17,1%); sindicato não responde às demandas específicas da área de atuação (13,4%); e a diretoria dificulta a sindicalização (2,1%). Contudo, 34,5% afirmaram não ter interesse.

Qual a sua opinião sobre essa “indiferença política” do jornalista brasileiro?
Jacques Mick: Essa interpretação, pertinente, baseia-se nas taxas de participação política (sindicalização, filiação partidária, atuação em organizações sociais), relativamente baixas, e na autoidentificação ideológica dos jornalistas, na qual um terço recusou o enquadramento em categorias clássicas no eixo esquerda-direita. Porém, na ausência de pesquisa análoga realizada no passado, é impossível saber se essa indiferença aumentou, diminuiu ou permaneceu no mesmo patamar. É provável que os índices de escasso engajamento político reflitam, em parte, algo do processo de formação desses profissionais, mais orientado por perspectivas técnicas, ou tecnicistas, do que por motivações críticas, ou humanísticas.
  
A maioria dos entrevistados é a favor da criação de um órgão para regulamentar a profissão de jornalista. Que implicações práticas essa medida teria sobre o campo profissional?
Jacques Mick: A autorregulamentação é uma conquista de inúmeras categorias. Com ela, os jornalistas poderiam acompanhar melhor a evolução e as transformações dos mercados de trabalho, zelar pela qualidade e pela ética no exercício profissional, organizar-se para combater abusos na exploração trabalhista, como a baixa remuneração dos jornalistas empregados em grupos de mídia, que reproduzem o mesmo material em jornais impressos, produtos online, emissoras de rádio e TV, agências de notícias, sem recompensar adequadamente o autor.

Qual a sua opinião sobre os organismos que hoje representam os jornalistas?
Jacques Mick: No fim desse mês, no Rio de Janeiro, os dados serão debatidos durante o Encontro Nacional de Jornalistas de Assessoria de Imprensa (Enjai)o principal evento promovido pela Fenaj nesse ano. Creio que a pauta de reivindicações poderá ser sensivelmente aprimorada, em função dos resultados da pesquisa. Os sindicatos e a Fenaj têm enormes desafios pela frente. Em primeiro lugar, organizar-se para representar trabalhadores cujo perfil de atuação é altamente fragmentado. Menos de um quinto dos jornalistas atua em empresas de grande proporção; a maior parcela trabalha em milhares de organizações com até cinco jornalistas contratados. Além do porte das empresas, há diferenças no tipo de atividade: tanto na parcela que atua na mídia, quanto na que trabalha fora dela, há variadas possibilidades de intervenção profissional, combinando funções clássicas (repórter, assessor de imprensa) a novas (analista de mídias sociais, produtor de conteúdo). Esses são obstáculos à produção de uma pauta de reivindicações comum, e as características do emprego jornalístico no Brasil tornam a negociação coletiva muito complicada.

Hoje, com os resultados em mãos, você gostaria de ter feito algo de diferente?
Jacques Mick: Muitos colegas sugeriram a inclusão de perguntas sobre a incidência de doenças ou problemas de saúde na categoria. Também foi mencionado o assédio moral como um problema recorrente. Na continuidade dessa pesquisa, no futuro, provavelmente incorporaremos esses temas. 

A divulgação dos resultados quantitativos, no livro, encerrou a primeira etapa da pesquisa e abriu a segunda fase, em que a equipe de investigadores pretende analisar com profundidade os dados, a partir de cruzamentos e aprofundamentos teóricos. Esse novo momento já tem os primeiros resultados. Dois estudos foram apresentados durante o evento Mudanças Estruturais no Jornalismo (Mejor) 2013, na cidade de Natal-RN, em junho. Um deles comparou as características dos profissionais de mídia às daqueles que atuam fora dela (especialmente como assessores). O outro analisou os fatores que contribuem para a baixa taxa de sindicalização jornalística. Revisado, esse texto acaba de ser publicado na revista Estudos de Jornalismo e Mídia. Um artigo com os dados sobre os jornalistas-professores foi publicado recentemente na Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo.

Como a falta de exigência de diploma para ser jornalista tem impactado a profissão? Você acredita que essa decisão deva ser revista?
Jacques Mick: Atualmente, o impacto da decisão é marginal. Apenas 2% dos jornalistas não têm ensino superior e apenas 11% não têm diploma de jornalista. Ainda não analisamos os dados relativos aos sem-diploma, mas o mais provável é que nesse contingente estejam antigos profissionais, que começaram a carreira quando o número de cursos era menor, e trabalhadores do interior, em localidades ainda sem oferta de graduação.

Acredito que o pleito da Fenaj junto ao Congresso, com a PEC do Diploma, possa ser bem sucedido, mas isso não tende a alterar significativamente a situação atual, já dominada por 89% de profissionais com diploma específico. Mais importante agora é discutir a qualidade e a distribuição territorial dos cursos, e avaliar se as dimensões da oferta de vagas estão adequadas ou superestimadas, já que um a cada quatro jornalistas não exerce a profissão. 

Na sua opinião, quais as vantagens e motivações de ser jornalista? A carreira é atraente hoje em dia?
Jacques Mick: As taxas de satisfação e insatisfação com o trabalho de jornalistas na mídia ou fora dela concentram-se nos mesmos tópicos. Os profissionais lamentam estar num mercado que não lhes oferece muitas possibilidades de progredir na carreira, tem remuneração inferior à que consideram adequada e encontram pouco apoio para qualificação. Mas estão satisfeitos com o tipo de trabalho, com as relações pessoais que desenvolvem e com o prestígio social da profissão. Então, a vocação age como um fator importante na motivação e na permanência dos jornalistas na carreira, que tem seus atrativos, a despeito de importantes indicadores relativos à precarização do trabalho, à multifuncionalidade e à baixa remuneração no início da carreira.

Acesse a página do livro Perfil do jornalista brasileiro - características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico em 2012” no site da Editora Insular.

Quem publicou a entrevista:
Observatório da ImprensaQual é o perfil do jornalista brasileiro?

4 comentários:

  1. Bruno, parabéns por mais esta entrevista e pelas valiosas informações que o professor e pesquisador Mick e sua equipe de trabalho nos oferecem a partir deste significativo inventário. Como jornalista formado há mais de 30 anos, trabalhando atualmente em Assessoria de Comunicação na UFRJ, acredito que os dados nos ajudam a melhor compreender o perfil atual de nossa categoria.

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    1. Olá, Fernando! Muito obrigado pelas considerações!

      Abraços!

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