quarta-feira, 4 de julho de 2012

Blog entrevista o físico Henrique Lins de Barros



A mais recente entrevista realizada pelo blog Dissertação Sobre Divulgação Científica traz uma novidade: pela primeira vez, o quadro acontece com um pesquisador da área de exatas. O físico Henrique Gomes de Paiva Lins de Barros é cientista e professor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), além de docente também da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto Carlos Chagas. 

Por um lado, a física faz parte da essência da formação dele, que cursou o bacharelado (PUC/RJ-1970), o mestrado (PUC/RJ-1973) e o doutorado (CBPF-1978) nesse campo. Por outro lado, Lins de Barros também adquiriu reconhecimento nas áreas humanas e sociais. Entre 1992 e 2000, ele foi diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), já publicou livros sobre a história da ciência, dirigiu e roteirizou vídeos sobre divulgação científica, incluindo o documentário Santos Dumont, O Homem Pode Voar, em celebração aos 100 anos do primeiro voo realizado pelo pai da aviação. Além de teses e dissertações em física, claro!, ele também orientou mestrandos e doutorandos em divulgação científica e museologia, entre diversas outras atividades que compõem o currículo desse cientista carioca.


Tamanha interdisciplinaridade pode ser identificada na entrevista que ele concedeu ao blog, em que aborda o contexto contemporâneo e a importância da DC, a aceitação acadêmica pela atividade, faz críticas à divulgação distorcida e também fala um pouco sobre a carreira.

Confira a entrevista:
1- Por que devemos divulgar a ciência? Qual seria a (ou as) função (ões) dessa atividade?
Lins de Barros: A ciência, a partir do século XIX, e mais intensamente no século XX, tem sido o motor de profundas transformações sociais, através de sua aplicação na tecnologia. Mudanças nos meios de transporte, na comunicação, agricultura, produção de alimentos, medicamentos, no tratamento da saúde e nas guerras foram todas obtidas a partir de trabalhos científicos desenvolvidos em laboratórios, universidades e centros de pesquisa. 

Porém, a ciência, ou melhor, as aplicações do conhecimento científico no âmbito da tecnologia têm sido vistas como grandes vilãs de crises impensáveis, como as que agora se anunciam: aquecimento global, fim da água potável, ar irrespirável, etc. Divulgar ciência é, assim, essencial para que o cidadão possa escolher o que esperar do futuro. Trata-se de uma atitude política. Hoje, vivemos sob o domínio da macroeconomia numa sociedade moldada pelo medo. Pergunto: será que as crises anunciadas desde o pós-guerra (guerra fria, esfriamento global [década1970], colisão com um meteorito, poluição descontrolada etc.) não têm um papel de impor o medo na sociedade e dominar o comportamento?

2- Como um pesquisador da história da ciência, de que forma o senhor classifica o atual contexto da DC no Brasil e no mundo e quais são as perspectivas para os próximos anos?
Lins de Barros: A divulgação no Brasil tem avançado muito rapidamente nas últimas décadas. Criação de museus ou centros de ciência, publicações impressas e implementação de pós-graduações mostram que há um real interesse por parte de cientistas, pesquisadores e do governo em suprir a sociedade com informações que saem dos laboratórios. O Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), a Estação Ciência, a Ciência Hoje e o Espaço Ciência Viva, entre outros, foram criados na década de 1980. Dela para cá, vários centros apareceram e muita gente passou a ter participação em suas atividades. A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia é um grande exemplo disso.

3- A demanda pela DC é bem atendida pelos centros de pesquisa, ou as instituições ainda precisam caminhar mais para suprir as necessidades de socialização da ciência?
Lins de Barros: Existe uma tensão que deveria ser observada com cuidado. Por um lado, os indicadores de produção olham para a publicação em revistas indexadas, em geral em língua inglesa e publicadas no exterior. Por outro, há uma cobrança para se divulgar amplamente as pesquisas, mas essa produção não aparece nos indicadores das agências de fomento.  O pesquisador que se dedica à DC pode perder auxílios ou ser mal avaliado por seus pares.

É essencial que se tenha uma literatura sólida gerada por autores brasileiros. Fala-se até de se aceitar dissertações e teses em inglês. Sei que esses padrões de trabalho acadêmico não são produtos de DC, mas servem para criar uma linguagem e dar um treino para uma escrita de maior fôlego. Muitas publicações de DC são traduções, às vezes de grandes cientistas, mas que foram escritas para outro público com ênfase em aspectos que são importantes no país de origem, sem dar conta de nossas angústias. Fala-se, por exemplo, em Amazônia: onde estão os textos de qualidade sobre a Amazônia e os ‘problemas’ escritos por pesquisadores brasileiros?

4- Parte da literatura da Ciência da Informação e da Ciência da Comunicação, dois campos que estudam a DC, lida com a conceitualização de dados, informação, conhecimento e até de sabedoria. Como os divulgadores e os cientistas devem proceder para que a socialização da C&T produza conhecimento e não apenas informação descontextualizada?
Lins de Barros: Acho que houve, e está havendo, uma mudança. Pensou-se muito em fazer uma divulgação conceitualizada que mostrasse os princípios fundamentais escondidos atrás de vários fenômenos. Hoje, parece que o importante é mostrar o que determinados avanços no conhecimento podem gerar no futuro. A alta tecnologia que inunda a vida cotidiana traz, sem dúvida, muito conforto para uma ínfima parcela da população, gera riqueza para poucos, mas espalha poluição, aumenta o consumo de energia e segrega aqueles que não podem usufruir de seus resultados.

Acho que a divulgação da ciência passou a ter um caráter político e não apenas de suprir o cidadão de informação para o crescimento de sua bagagem cultural. 

5- Há pesquisadores que defendem as atividades da divulgação como de proposta universal, visando atingir ao maior número possível de pessoas. O senhor concorda que, ao contrário, os trabalhos devem ser segmentados por públicos, garantindo, inclusive, a qualidade do discurso e da apresentação das socializações?
Lins de Barros: Vejo a divulgação com o algo regional, pois tem que falar com um interlocutor que está num espaço e num tempo, com valores próprios etc. Houve, e ainda há, a tendência de importar experiências em DC e eu acho pouco apropriado. Vem junto uma visão de mundo que não pertence ao nosso.

6- O senhor identifica mais claramente qual é o seu público da DC?
Lins de Barros: Certamente é para alguém que já possui um certo conhecimento do assunto. Não tenho uma escrita infantil ou mesmo juvenil. Até tento, mas não consigo.

"Fizemos avaliações no Mast que mostraram que a eficiência em transmitir um conceito científico dependia mais da linguagem do que da possibilidade de interagir que, muitas vezes, funcionava simplesmente com um jogo."

7- O que o motiva a realizar a popularização? Como e quando o senhor passou a se interessar por esta tarefa?
Lins de Barros: A divulgação científica apareceu com importância assim que me formei em física, em 1970. Eu e meus colegas nos perguntávamos o que fazer após receber um diploma de bacharel em física. É claro que tudo nos levava ao mestrado e ao doutorado. Mas, tínhamos a preocupação de informar a sociedade e divulgar um conhecimento que possuíamos e que não era socializado.

8- Que autores o senhor considera imprescindíveis para o estudo da divulgação científica? E quais os projetos se destacam no Brasil (e eventualmente no exterior)?
Lins de Barros: Difícil citar autores. Mas devemos olhar o que os brasileiros estão fazendo. Leio os estrangeiros, é claro, mas eles fazem uma reflexão que está distante de nós. Lembro uma febre que correu sobre exposições hands-on, aquelas que o visitante manipula um experimento. A febre veio dos Estados Unidos via Exploratorium. Veio de um país que pouco se toca: nas pessoas ou nas coisas. Fizemos avaliações no Mast que mostraram que a eficiência em transmitir um conceito científico dependia mais da linguagem do que da possibilidade de interagir que, muitas vezes, funcionava simplesmente com um jogo.

Leio muito história (não só da ciência), filosofia, e, é claro, artigos científicos principalmente em minha área de trabalho como pesquisador. Também tento me manter atualizado com os artigos que saem sobre divulgação da ciência.

9- Antes de fazer física, o senhor cursou engenharia na Universidade Federal Fluminense por algum tempo. Durante a adolescência e a juventude, chegou a pensar em fazer uma faculdade na área de humanas e sociais, ou a exatas sempre predominou?
Lins de Barros: Já pensei em fazer música, cinema além de ler muito: romances, textos filosóficos, história, sociologia, antropologia. Fiz física lendo estes textos, além, é claro, do que aparecia nas matérias cursadas.

10-A divulgação científica contribuiu de alguma forma para o senhor enxergar com outros olhos e ter outra compreensão da física?
Lins de Barros: A divulgação ajudou, mas não tanto. O que mais me influenciou foram os textos de filósofos ou historiadores. Cito alguns autores que me veem à cabeça agora: Platão, Koyré, Bachelard e Serres.

"Acho que a divulgação da ciência passou a ter um caráter político e não apenas de suprir o cidadão de informação para o crescimento de sua bagagem cultural."

11- Como o senhor observa ser a receptividade dos seus colegas pesquisadores em relação à divulgação? Em geral, ainda são receosos e cautelosos ou já possuem uma postura mais otimista e aberta quanto ao diálogo com a sociedade?
Lins de Barros: Eu os vejo interessados e com uma postura bem otimista. Muitas vezes, não podem se dedicar mais por causa dos indicadores de produção que não são sensíveis.

12- Os jornalistas e divulgadores de ciência costumam procurá-lo com frequência? Como costuma ser a forma de contato e a abordagem deles? O senhor sente segurança e preparo neles?
Lins de Barros: Eles me procuram bastante e a relação nem sempre é tranquila. Muitas vezes, os jornalistas se colocam como autoridade em assunto que não conhecem. Em outras, não percebem que quando se fala sobre um tema, os termos são bastante precisos. Sinto, infelizmente, um grande despreparo. Um jornalista político sabe a diferença entre um deputado e um senador. O jornalista científico muitas vezes confunde a aceleração com a velocidade, massa com volume... E, o que é pior, acha que tudo isso não passa de um preciosismo do pesquisador, sem relevância.

13- Do ponto de vista do pesquisador, o senhor já enfrentou problemas quanto à divulgação, como alguma interpretação equivocada de um divulgador? Poderia citar também um exemplo de divulgação plausivelmente realizada?
Lins de Barros: Sem dúvida, tive problemas bastante desagradáveis, não só por interpretação equivocada, mas também pela mania de se criar uma polêmica para transformar a entrevista em algo “mais interessante”. É comum os jornalistas acharem que o assunto não tem interesse para o público com quem se comunicam, e então erram profundamente. Os pesquisadores estão dentro do mundo, são pessoas com seus problemas cotidianos, sentem o que os outros querem saber, e o jornalista se acha mais sábio em identificar o que eles chamam de público-alvo.


Leia a entrevista da pesquisadora Lena Vania Ribeiro Pinheiro, do Ibict
Leia também a entrevista do jornalista Wilson da Costa Bueno

2 comentários:

  1. O blog agora nos deve uma relação de toda produção do professor em línguas portuguesa para até as nossas crianças que tenham alguma curiosidade possa fazer leitura.

    ResponderExcluir
  2. Henrique é um ótimo professor. Sempre com conversas incríveis!

    ResponderExcluir