sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Presidente do Enancib-2013 fala sobre o evento e a Ciência da Informação

O Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (Enancib) é a maior reunião brasileira entre estudantes, pesquisadores, professores e demais profissionais desse campo do conhecimento. Em 2013, o evento vai ocorrer entre os dias 29 de outubro e 1° de novembro, em Florianópolis-SC, sendo organizado pelo Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com a participação de quase 60 colaboradores. Até o momento, já foram registradas mais de 400 inscrições e 381 trabalhos submetidos, dos quais 310 aprovados (18,7% de rejeição).

Para falar sobre o Enancib, o blog Dissertação Sobre Divulgação Científica entrevistou a pesquisadora Marisa Brascher Medeiros, presidente da 14a edição do Encontro, que é uma iniciativa anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciência da Informação (Ancib), presidida por Marisa entre 2006 e 2008.


Confira a entrevista:

Além das apresentações de artigos e pôsteres, quais outras atrações estão sendo organizadas para o Encontro de 2013?
MB: O Enancib é um evento peculiar orientado à comunidade científica da Ciência da Informação, com a programação focada essencialmente na apresentação de pesquisas concluídas ou em andamento. Haverá lançamentos de livros, com o apoio da Associação Catarinense de Bibliotecários, mas normalmente não oferecemos cursos ou treinamentos, por exemplo. 

Atualmente, as discussões do Enancib estão classificadas em 11 grupos de trabalho (GT´s). Como a senhora observa a distribuição dos temas nessa configuração? Há movimentações e a necessidade para a alteração desse quadro?
MB: Na minha opinião, deve ser feito um estudo dos presentes grupos, pois o surgimento ou a extinção de GT´s reflete a própria dinâmica da CI, ou seja, para onde estamos caminhando e o que estamos deixando para trás. 

Há comentários a respeito de grupos com reduzido número de pesquisadores, assim como sobre uma certa sobreposição de alguns grupos e temas. De fato, não tenho conhecimento de propostas e movimentos oficiais para mudanças a curto ou médio prazo, até porque, institucionalmente, é um assunto da Ancib e de seus gestores. 

Cabe salientar que o crescimento dos GT´s deve levar em conta as sistemáticas dos Enancib´s, pois possivelmente será complicado encontrarmos espaços adequados para a realização dos eventos, incluindo a questão dos custos, que podem ser bem mais elevados.

Um artigo publicado em 2010 na Revista "Informação & Sociedade: Estudos" aborda a organização do Enancib, no caso de 2009. Entre as diversas considerações, os autores apresentam alguns desafios para realizar o evento, tais como o espaço e a logística de transporte, bem como problemas técnicos na submissão dos trabalhos. Há, inclusive, sugestão de que, dada a periodicidade do Encontro, a própria Ancib poderia concentrar os processos de submissão dos artigos. Qual é a sua opinião sobre isso e quais são os desafios que vocês têm encontrado?
MB: O Enancib tem uma sistemática bem definida e vem se aperfeiçoando com as experiências acumuladas a cada edição. Porém, as dificuldades para realizar atividades desse porte sempre vão existir, pois são muitos os aspectos envolvidos nos processos. Para o XIV Encontro, do ponto de vista da infraestrutura, não enfrentamos obstáculos com o espaço e o transporte, até porque Florianópolis é uma cidade que oferece algumas facilidades nesse sentido. 

A respeito das submissões, a decisão dos coordenadores de GT´s no último evento, em 2012, no Rio de Janeiro, foi a de manter o Sistema Online de Apoio a Congressos (SOAC) como software de gerenciamento das submissões. O sistema é muito semelhante ao Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER), que não apresenta muitas dificuldades para utilização e já é conhecido pela maioria dos avaliadores de artigos de revistas. Naturalmente, há problemas e limites no uso dessa ferramenta, que não é 100% adequada. 

A minha experiência tem reforçado a opinião de que precisamos contar com mais profissionais de Tecnologia da Informação (TI) treinados para implementar as medidas necessárias para os Enancib´s. É difícil encontrar no mercado técnicos com conhecimentos sobre SOAC, o que se passou também conosco. 

Já sobre a possibilidade de a Ancib concentrar em seu site os processos de submissão, eu acho bastante útil e pertinente, pois facilitaria muito as tarefas dos organizadores, que poderiam se dedicar de forma mais acentuada a outras atividades. Eu coloquei essa questão ano passado, durante a reunião dos coordenadores de GT´s, que, aliás, são da Ancib e responsáveis pelos processos de submissão. Natural, então, a entidade assumir esse trabalho. Porém, o fato de a Associação não ter uma sede e uma estrutura próprias consiste em uma barreira para tal propósito.

Por outro lado, eu gostaria de destacar um trabalho importante que a Ancib tem feito, que é o de reunir em seu site os anais de todos os Encontros. Isso vai facilitar, e muito, as pesquisas e a própria memória do campo da Ciência da Informação.

É possível identificar e definir um perfil brasileiro da Ciência da Informação?
MB: Essa é uma questão muito complexa. Difícil falar da CI como um todo. O segmento em que atuo, por exemplo, que é a Organização e Representação da Informação, possui um desenvolvimento avançado, sólido, com reconhecimento fora do país e pesquisadores bastante competentes. 

De uma forma geral, eu percebo que a Ciência da Informação tem crescido muito no país nos últimos cinco anos, fruto de mais apoios e recursos das agências de fomento à ciência e tecnologia. Há mais professores em congressos e demais atividades no exterior, mais estudantes sendo beneficiados com os programas que incluem os estágios e as chamadas experiências-sanduíche em instituições estrangeiras. O momento é muito bom, de muitas trocas e evoluções. Em breve, as consequências dessas ações serão ainda mais desfrutadas, com o fortalecimento estrutural de instituições e com a implementação de novas pós-graduações. Sou otimista em relação a isso!


Hoje, há 11 programas de pós-graduação stricto sensu de CI no país. Como a senhora observa o desempenho deles e a dimensão sobre a CI nacional? A quantidade é suficiente para atender à demanda?
MB: Alguns programas de mestrado e doutorado foram criados nos últimos anos, o que demonstra a evolução do campo. Esse crescimento, no entanto, ainda é tímido em relação à demanda. Os concorridos processos seletivos representam bem a elevada procura dos estudantes, mas não dispomos de estrutura para suprir essa lacuna. Isso acontece principalmente em regiões pouco contempladas pela implementação de programas de pós-graduação em Ciência da Informação, como no Norte do Brasil, onde não há curso dessa especificidade, e no Centro-Oeste, que comporta apenas um programa. Por outro lado, no Sudeste a oferta é bem maior, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Então, de maneira geral, há poucos cursos, até mesmo porque nós atendemos não só a quem vem da Museologia, Arquivologia e da Biblioteconomia, mas também de diversos outros campos do conhecimento.

É preciso que esse crescimento ocorra tanto em número de novos programas, quanto nas estruturas dos que hoje estão em funcionamento. Há muitos professores se aposentando, sendo substituídos por novos talentos sem, necessariamente, experiência suficiente para cobrir aquele espaço de atuação dos veteranos. É um momento de transição. Por isso, foi muito sábia a decisão da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em permitir aos docentes aposentados atuarem na condição de professores permanentes. Sem isso, certamente haveria uma situação bastante crítica nos programas.

Qual é o grau de desenvolvimento que CI pretende alcançar? A Comunicação, que assim como a CI e a Museologia são subáreas das Ciências Sociais Aplicadas, segundo parâmetro do CNPq, é uma referência?
MB: Nós nos acostumamos a comparar a CI com a Comunicação, que é muito maior em número de programas, pesquisadores etc. De fato, somos minoria, o que, naturalmente, reflete na disponibilidade de recursos, também. Na verdade, não acredito que sejamos prejudicados por causa da grandeza da Comunicação, pois os investimentos são proporcionais.  Porém, essa diferença de tamanho dos campos dificulta muito as negociações, porque precisamos nos esforçar bastante para que as nossas opiniões sejam ouvidas e atendidas.  Claro, na medida em que formos crescendo, vamos usufruir de mais recursos, o que está diretamente relacionado à demanda. Os cientistas da CI precisam submeter constantemente projetos e solicitar apoios.

E eles têm emitido projetos suficientes, ou ainda falta uma cultura da submissão?
MB: Nós já melhoramos bem em relação ao passado. Houve um aumento do volume de projetos apresentados. Muitos dos nossos representantes estão mais ativos nessa parte, mas ainda precisamos desenvolver mais projetos e explorar mais a capacidade de pesquisa da CI.

Como a senhora observa a qualidade e quantidade dos periódicos da Ciência da Informação no Brasil?
MB: Ao contrário do volume de recursos dos quais dispomos e dos programas de pós-graduação existentes, o número de periódicos é bastante satisfatório. Ao meu ver, atende à atual demanda de produção. Porém, se a produtividade crescer significativamente, vai gerar um gargalo. O que é preciso é aperfeiçoar a infraestrutura das revistas, os processos de submissão, de forma a agilizar as avaliações. Não acho que mais títulos sejam necessários, mas sim o melhoramento dos que hoje estão em atividades.

Qual é a sua avaliação sobre a longevidade dos periódicos?
MB: Esse problema é menor do que foi há algumas décadas, quando os veículos eram impressos. A introdução de plataformas digitais facilitou amplamente os processos, inclusive barateando custos. Hoje, as revistas de qualidade são mais estáveis e perenes, sim.

Qual é o grau de cooperação entre grupos de pesquisa de CI no Brasil?
MB: Há muita parceria, o que é natural, já que a ciência evolui através de trocas de conhecimento e de experiências entre os pesquisadores. As próprias agências de fomento estimulam essas interações entre grupos de pesquisa. Porém, as atividades costumam ficar restritas às articulações feitas pelos próprios pesquisadores. As cooperações precisam ser mais institucionalizadas e formalizadas, até para sentirmos e percebermos melhor a realidade e os efeitos dessas relações.

Como é o mercado de trabalho brasileiro para quem é da CI?
MB: Eu não conheço muito bem como é o ambiente de trabalho fora da universidade. Então, eu não posso responder com algum grau de segurança sobre o mercado como um todo. Já na academia, a expansão da CI tem gerado a abertura de vagas em projetos de pesquisa e na docência, o que espero ser ainda mais potencializado nos próximos anos.

Há algum tópico sobre o qual a senhora gostaria de comentar, mas deixamos de abordar na entrevista?
MB: Eu gostaria apenas de dizer que estamos muito felizes em organizar o XIV Enancib e em receber os estudantes, os pesquisadores e demais profissionais dos campos relacionados à informação. Esperamos realizar um evento à altura da área e deixar contribuições valiosas para as discussões futuras.


Quem publicou a entrevista (em atualização):
 Presidente do Enancib-2013 fala sobre o evento e a Ciência da Informação
Jornal da Ciência

Presidente do ENANCIB-2013 fala sobre o ferramenta de e-mail marketing evento e a CI 
Blog De Olho na CI

Presidente do ENANCIB-2013 fala sobre o evento e a CI

Ancib

Presidente do Enancib-2013 fala sobre o evento e a Ciência da Informação
DiCYT

Florianópolis sedia Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação
Notícias UFSC

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